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Crônica: "Onde assistir ao fim do mundo"




Por André Argolo:

Faz tempo que não desço e corro a cidade, não sei onde andam os caras que via, portando cartazes, subindo em caixotes, rezando alto, desafiando a pureza espiritual de passantes, falando de condenação e fim do mundo.

Vai ver já se recolheram. Como eu penso muito em fazer também. Mas eles se foram como quem cumpriu uma missão importante, dizendo: “Não falei? Eu te disse”. A gente ridicularizava e as notícias e as ciências duras agora lhes dão alguma razão, ainda que uma razão diferente do que eles pregavam.

Estou apenas a notar a ausência, sem defender ninguém, nem acusar. Apenas constatando que já não avisto aqueles que em vez de culpar petroleiros criminosos por vazamentos de óleo no mar, preferiam apontar as roupas curtas, o rock’n roll e nossas orientações sexuais como causas do fim do mundo; que em vez de chamarem de diabo os que queimam e deixam queimar as matas e os bichos, chamaram a mim de capeta, porque escolhi estar na vida em salto plataforma e glitter.

Engraçado que no fim, se houver um fim determinado, como imaginamos nos livros e nos filmes, será isto: conscientes e idiotas sentando lado a lado na última arca do planeta, a nave muito louca que dá uma perigosa esbarradinha na ponta do Everest, na cena final de fuga, quase quebrando o fino casco da salvação.

Teriam se resignado e se refugiado, por isso sumiram das praças? Onde ficaram os caixotes: me seriam úteis, viu? Teriam se movido a algum canto, o melhor que cada um pôde alugar: como quem compra um novo sofá e uma nova TV ainda maior, para assistir a uma decisão de campeonato? Quereriam confortavelmente, na medida do possível, assistir ao resultado desse jogo que jogamos todos, craques ou pernas de pau?

Ao que tudo indica, é um jogo definido, chato mesmo, com chances cada vez menores de uma virada. É o que dizem, só estou contando o que ouvi, de narradores russos, portugueses, indonésios, argentinos, com traduções simultâneas para o inglês, para modo de uniformização. Parece que o time que está perdendo e desmotivado. Pior: joga como quem não estivesse perdendo, terrivelmente.

Não é papel de uma crônica chamar os dados oficiais e dizer de onde chegam as notícias. Estão por todo lado, estão bem aqui, muito bem fundamentadas, com dados consolidados da degradação das condições de vida no planeta. Ixi, falei!

Você já escolheu um barranco onde se encostar? Onde vai colher as últimas tangerinas de um último verão? Tem por perto um riacho de água fresca, para molhar os pés enquanto desertos nos cercam? Ou guarda dinheiro para aparelhos de ar condicionado mais potentes, porque para cada grau a mais na temperatura média do mundo acha que sempre haverá mais BTUs?

A madeira podre dos caixotes onde subiam os pregadores não bastará para o casco da arca.

O fino casco da salvação... de que será feito, então? Plástico, caso não haja mais madeira? Que água sairá nas torneiras da arca? Que ar refrescará ou aquecerá os tripulantes?

Ouvi a vizinha de baixo brigar com a mãe e dizer que o problema é erro de cálculo. Parece que estamos chamando de planejamento o que é construído sobre ilusão. Foi o que acho que ouvi ela dizer. Ela trabalha de caixa num supermercado, sabe das contas.

Ouço o programa de rádio à tarde, tão seco lá fora, ponho toda fé nesses economistas! Não são pessimistas, nem otimistas, eles sabem fazer contas! Eles saberão fazer as contas certas a qualquer hora dessas, acreditemos. Andam ocupados, a gente sabe, calculando juros, demandas reprimidas, impactos de redução de impostos, necessidades de crescimento econômico, mas uma hora dessas vão ter tempo para notar que crescimento significa cavar mais buracos, queimar mais lenha, usar mais água e que esses estoques estão minguando rapidamente. O que você acha? Que eu devia acreditar nessas pessoas ou nos pregadores do fim do mundo, o que sumiram da minha vista ou esses que mostram mapas da destruição que não estamos nem começando a diminuir?